ANNA

 Antes de qualquer coisa, irei me apresentar brevemente: 

Olá, meu nome é Maria Carolina, tenho 23 anos. Sou professora de literatura e escritora - tanto de fanfics e tanto de um livro publicado pela Editora Viseu. Sou apaixonada pela escrita e como as palavras são instrumentos de grito e poder; fazendo com que um grupo (até mesmo a sociedade) escute e preste atenção no que temos a dizer e a oferecer nesse vasto mundo estranho.

Com isso em mente, escrevi um desabafo de autoria própria para todas as mulheres (que menstruam ou não menstruam), para dizer uma coisa: VOCÊ NÃO ESTÁ SOZINHA.






ANNA


Anna tinha apenas seus quinze anos de idade. Era uma jovem de cabelos ruivos e sardas espalhadas pelas suas grandes bochechas vermelhas. Andava pelos corredores de sua escola, usando roupas claras e com muitos tecidos. Não era para esconder nenhuma marca - pois até então não tinha - ela somente se sentia a vontade e confortável. 

A garota não tinha medo algum. Pensava que era imortal. Até se sentia assim, afinal não tinha nada que poderia tirar a sua fome pela vida. Tinha amigos descentes, uma família alegre e dois cachorros adoráveis. Ela era feliz e inocente.

Inocente não é sinônimo de burrice. Sabia que tinha maldades pelo mundo e tudo o que uma garota tinha que enfrentar andando sozinha tarde da noite; os xingamentos e os assovios inconvenientes, assim que dobrava a esquina; como tinha que escolher "bem" seus parceiros para não ser conhecida como PUTA e SAFADA pelos seus colegas. Para que no fim, se torna-se uma mãe carinhosa com seus futuros filhos - ainda não existentes e que nem cogitava a ter.

Anna era uma garota normal. Não tinha um corpo padrão. Na verdade, ela tinha curvas e dobrinhas, quadris grossos e pés com chulé; um cabelo curto e seboso. Ela não era feia e desleixada. Era apenas ela, com seu gosto e estilo próprio. Gostava de desenhar e jogar bola; ouvir One Direction e Metalica; usar saia e calça jeans. Falava palavrão e sentava com as pernas abertas. Ainda era educada com as pessoas quando as mesmas pedia informações.

Novamente, ela era normal. Assim como qualquer menina de sua idade. Mas depois de outubro, ficou conhecida como Rodada; Atirada; Prostituta. Mentirosa; Falsa; Sem-Vergonha.    

E não importava o quanto ela gritava para as pessoas: "Eu não queria", "Eu não fiz nada", "Foi ele, foi ele". Todos só conseguia retrucar com pauladas: "Por que você deixou?", "Você podia gritar, por que não gritou?", "Não aconteceu, pois você não o denunciou."

Anna podia sim explicar, dizer a todos que não tinha gritado porque não conseguia acreditar que aquele mal estava acontecendo com ela, então congelou. Ficou com medo de ninguém acreditar e ser conhecida apenas como A Garota Molestada. Podia sim argumentar, podia sim ter denunciado. Mas ninguém jamais entenderia seus pensamentos e sua alma partida, durante todos aqueles meses passados.

O cúmulo do absurdo foi quando um ser das trevas, disse: "Eu não acredito em você, pois você não tem marcas no seu corpo. E ainda continua aqui." Marcas? As internas não contam? Continuar aqui? Então só "vale" quando seu corpo é desovado em um rio ou na mata? 

A sociedade acham que as Annas precisavam estar desacordadas ou estar gravemente feridas para tomar alguma atitude. E mesmo assim, nenhuma medida é levantada. Sempre são caladas e acusadas. Toda santa maldita vez, são colocadas como culpadas e seu agressor inocentado. A menos que venha a público. Nossa, prepare-se para os escândalos. Acusações e apontamentos vindo de pessoas que não entendem absolutamente nada do inferno interior e exterior.

Anna não gosta de falar sobre o assunto e nem ler, pois sabe como o final sempre termina. Ela frequentou muitos psicólogos, pois tinha essa condição, e tomou remédios fortes por muito meses. Conseguiu deixar-se ser tocada com seus dezoitos anos de idade e continuou a viver - algumas vezes, sobreviver. Afinal, não é algo que os pesadelos são soterrados no travesseiros macios. Demora, demora, demora, talvez nunca passe...

É possível conviver com esse trauma? Infelizmente, existe muitas Annas na nossa sociedade. Algumas não querem sentir mais essa dor de ter um pedaço seu ser destruído. Isso não as tornam fracas e as outras fortes. Cada uma é cada uma, podem compartilhar o mesmo "nome", mas tem histórias diferentes. 

Ser mulher é difícil. Seguir em frente é difícil. 

Isso todos os seres humanos sabem. Mas não sabem que nenhuma mulher está sozinha. Todas sentem a dor e angustia. Algumas podem chorar ou outras se revoltar. E é normal, afinal não existe um manual para ser seguido. Entretanto, uma única coisa que é certa, o respeito, exigências e lutas precisam continuar.

Sua Anna pode ser sua irmã, amiga, namorada, parceira, vizinha. Todas elas precisam se sentir acolhida e ouvir as palavras: eu acredito em você. Essas palavras carregam um impacto absurdo para aqueles corações e espíritos partidos. Pode até mesmo salvar.

Se a minha Anna estivesse escutado essas palavras naquela época. Eu poderia estar ouvindo sua risada, seu canto, suas piadas. Dançando livremente pelo quarto. Sentindo-se amada e respeitável, desejada. Talvez ainda ela estaria aqui, pois eu seguraria a sua mão, olharia nos fundos dos seus olhos, afogando meus dedos em seus cabelos alaranjados e diria:

EU ESTOU AQUI. EU ESCUTO VOCÊ. EU ACREDITO EM VOCÊ.

VOCÊ NÃO ESTÁ SOZINHA. 

 

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